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Enshittificação orwelliana: o Bitwarden que você conheceu não existe mais

Saem as promessas de inclusão, transparência e always free, e entra um especialista em depenar companhias.

O BitWarden é, merecidamente e há anos, o queridinho de uma parte especialmente consciente entre os usuários que confiam em sistemas gerenciadores de senhas, inclusive porque é open source (e a página explicando como hospedar o seu próprio BitWarden, em seu próprio servidor, com menos de meia dúzia de comandos, continua no ar).

Mas isso mudou, ou precisa mudar urgentemente, porque o BitWarden sofreu um Efeito Twitter: aquele BitWarden que conhecíamos não existe mais. Michael Crandell, o CEO que conquistou a confiança dos usuários, não manda mais por lá, e o novo dono é uma corporação daquelas cujo negócio é, assumidamente, comprar empresas para extrair tudo que elas tiverem de valor, depois vender pra alguém o bagaço que sobrar.


Ícone do BitWarden em meio a um incêndio em um container de reciclagem

O resumo publicado por Patrick Boyd1 é leitura importante para quem ainda usa ou conhece quem ainda use o BitWarden, porque conta a história desde o começo, e apresenta com clareza a periclitante situação atual.

Aqui vai o meu resumo do resumo: em fevereiro, o CEO anterior foi transformado em consultor, e um novo CEO (especializado em depenar empresas, no modelo que mencionei acima) assumiu – sem grandes anúncios nem publicações, o que já indica que eles sabem que a mudança afugentaria parte valiosa da clientela.

A partir daí, ladeira abaixo: em março o preço já aumentou, em abril desapareceu do site a promessa de "Always free", até então em destaque desde sempre, e em seguida o lema deles mudou. Continua sendo o acrônico GRIT, só que o significado dos valores representados pelas letras mudou, assim:

  • era: GRIT - Gratidão, Responsabilidade, Inclusão e Transparência
  • ficou: GRIT - Gratidão, Responsabilidade, Inovação e Confiança2.

Ou seja: tchau, transparência e confiança na gestão do BitWarden! Como no caso do CEO, foi uma mudança sem maiores avisos ou divulgação, o que também é sintomático – e piora quando se percebe que eles mudaram até menções a respeito desses princípios em menções de posts de blog da empresa, de anos atrás, em uma manobra literalmente orwelliana.

Não é algo que surpreenda: softwares mantidos por empresas estão sujeitos a esse risco (relativamente típico, até, e que vem se repetindo em modelos parecidos, como vimos recentemente com o Github). Não menciono isso neste momento para criticar o modelo, mas apenas para apontar o fato.

Mesmo assim, quem usa o plano grátis é melhor ficar atento à continuidade, quem usa pago já deve estar pagando mais há meses, e quem tem o self-hosted tem que ficar ainda mais atento a eventuais mudanças que impliquem em restrições nas APIs públicas ou na disponibilidade de código3 – ao menos até que façam um fork, e todo aquele balé cuja coreografia também já vimos várias vezes.

Ou, é claro, mudar para outro app ou estratégia. A minha preferida é a clássica correct horse battery staple – indique suas alternativas nos comentários!

(Link recebido via @elilla& – obrigado, querida!)

 
  1.  O Patrick, você sabe, também é autor do fundamental tema capivarístico para o Mastodon Web.

  2.  “Trust”, no original

  3.  Porque a licença pode mudar a partir de uma versão futura, por exemplo, ou incluírem um novo requisito não implementado na versão open source.

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