Modelos de negócio: é possível viver do software livre?
| Tweet |
|
Agora que o manifesto do Anahuac sobre a ausência de sucesso comercial do seu projeto livre JeguePanel e a sua opinião sobre o apoio recebido da comunidade nacional já foi uma das notícias mais lidas da semana por aqui, e inclusive deu lugar a um contra-manifesto do leitor Timm, publicado lá no Meio Bit, creio que está na hora de falar sobre um outro lado da questão, que eu abordei brevemente na minha notícia sobre o manifesto original: a questão dos modelos de negócio.
Eu sou formado em Administração, e mesmo que não fosse, creio que teria a mesma visão que hoje tenho sobre 3 pares: oferta e demanda, oportunidades e ameaças, incentivos e punições, e a influência deles sobre o comportamento do mercado, ou mesmo da comunidade, mesmo quando deixamos de lado os aspectos que a maioria das pessoas que eu conheço associa com o Marketing.
Não quero falar especificamente sobre o JeguePanel, mas sim de modo geral. Não vejo grande chance de sucesso em termos de participação comunitária ou mesmo de adoção pelo mercado (ou pela comunidade) em projetos que não correspondam a uma demanda (pré-existente ou criada), e para a qual não sejam criadas oportunidades de participação e adoção, com os devidos incentivos. E muitas vezes criar o incentivo, no caso de desenvolvimento individual, é difícil, numa espécie de Efeito Tostines reverso.
Não acho que contar exclusivamente com o incentivo ideológico seja suficiente para atingir esta finalidade. E nem acho que todo projeto individual tenha condições de chegar a alcançar a “massa crítica” suficiente para que a comunidade ativamente contribua (com código ou recursos) para seu desenvolvimento, e um mercado consumidor surja e se mantenha. Alguns projetos conseguem, mas creio que a absoluta maioria não.
E isto não é motivo para não tentar, mas deveria ser motivo suficiente para não se surpreender quando a coisa não decola da forma como o autor desejaria. E certamente *deve* ser motivo suficiente para o autor fazer completamente o seu dever de casa, incluindo pensar num bom modelo de negócios e construir um plano de negócios realista.
Ganhar a vida não é a única razão para uma pessoa se interessar por manter um projeto de software de código aberto, e mesmo quem quer ganhar a vida desta forma não precisa necessariamente ser empreendedor. Mas se você está pensando em empreender, como o Anahuac fez e agora expôs o que aprendeu, talvez queira revistar o artigo que publiquei em 2004 indicando 7 modelos de negócios para o código aberto, todos com alguma viabilidade para obter vantagem competitiva. Exemplos, sem detalhamento:
- Desenvolvimento patrocinado por uma organização interessada (provavelmente o caso de sucesso mais comum para desenvolvedores individuais)
- Receita baseada em consultoria
- Licença dual (como no caso da MySQL AB e da Trolltech)
O mercado mudou bastante desde 2004, então não tente aplicar o conteúdo sem adaptá-lo e atualizá-lo, e sem uma boa pesquisa sobre a sua própria realidade.
Software livre como participação em uma comunidade e software livre como integrante de um modelo de negócio são dois pontos de vista bastante distintos sobre um mesmo objeto. Note que aqui estamos falando do software livre como um negócio, que foi o que o Anahuac tentou alcançar.
Um bom modelo de negócio baseado em inovação considera, entre outros fatores, uma proposta de valor, um modelo de receita, uma estratégia competitiva e um plano de crescimento. Os modelos de negócio e a vantagem competitiva freqüentemente não têm uma dependência tão direta com o aspecto ideológico ou a obtenção do apoio da comunidade. Ambos (o aspecto ideológico e o apoio da comunidade) são muito importantes para considerar na hora de compor a estratégia, e podem até mesmo ser considerados como essenciais (isso depende do autor do software e do plano, na verdade), mas a tarefa fica bem mais difícil quando o plano se baseia integralmente (ou majoritariamente) nestes quesitos, pois é raro eles conseguirem formar diferencial competitivo fora de um nicho bastante restrito.
E lembre-se que o modelo não é tudo. Para que decole, é preciso encontrar um mercado interessado em pagar, e oferecer os incentivos necessários. Na ausência ou falha destes requisitos, o negócio termina no vermelho rapidamente. Bastante pessoas e empresas vivem hoje do software livre, e você também pode entrar neste grupo – mas isso não acontece por acaso, e nem por um simples ato de vontade.
Claro que você também pode contribuir sem interesse em retribuição. Bastante gente faz isso (com seus próprios projetos, ou com projetos alheios) e se sente recompensada – e assim faz o código aberto avançar. Aliás, esperar por retribuição espontânea, de alguma fonte difusa, é algo que você deve evitar mesmo – raramente acontece.
A situação não é tão análoga, mas no caso do BR-Linux (que é conteúdo livre, GNU FDL), eu hoje até obtenho bom resultado mensalmente (graças a um modelo baseado em publicidade), mas nunca me passou pela cabeça me sentir desvalorizado ao longo dos primeiros anos, em que poucos usuários contribuíam, e o site tirava dinheiro do meu bolso todos os meses. Ter saldo positivo é melhor, mas se o meu objetivo principal fosse esse, tudo seria diferente. E eu aproveitaria muito menos – neste sentido, acho que a idéia do Linus Torvalds está muito mais próxima da minha ;-)
| Tweet |
|
• Link direto para este post: http://br-l.org/!116
• Siga no Twitter: @brlinuxblog e @augustocc
• Mais posts do mesmo tema: Comunidade, Destaque, Mercado










Acredito eu que a maior dificuldade de negocio com Sotware livre, pelo menos aqui no Brasil, é “criar uma necessidade” na cabeça das pessoas.
Tenho uma pequena empresa de consultoria e nesse ano estou disposto a investir somente em SL mas vejo impregnado na mente das pessoas o famoso “jeitinho brasileiro” quando trata-se de um suposto plano de migração ou licenciamento de software. As pessoas não se sentem na necessidade de sair da pirataria, visto que (alegam elas na sua maioria) “não acontece nada usando softwares piratas” e os poucos que licenciam seus softwares são aqueles que batem de frente com uma fiscalização e por falta de informação acabam comprando cópias do windows.
Grandes empresas usam com muito sucesso o SL, mas o pequeno empreendedor (como eu) ainda tem um grande caminho a percorrer até chega nesse nicho.
Lógico que tem varios outros planos de negocios com SL, mas a minha area é consultoria é quero investir em planos de migração porem ainda sem uma estrategia realmente definida, mas a ideia base é criar uma necessidade, acreditando (como eu acredito) que tem sim como ganhar dinheiro com SL.
O erro está claro, ou seja, uns querem e esperam por milagres via software livre. Deixam a lógica de lado e depois, tentam empurrar a culpa de seu fracasso (que se inicia pela falta de capacidade de idealizar de forma correta) no processo.
Belo artigo, Augusto. É bom ver algo com pé no chão.
Só acho que foi muito generoso chamando AQUILO que foi escrito no portal fanboy, digo, meiobit, de um contramanifesto.
Lamentável a postura de birrentos-que-querem-só-provocar que vigora por lá. Justiça seja feita, não por todos.
Enfim, parabéns.
P.S.: Sugestão… poderia colocar um plugin , ou o que seja, para permitir respostas aos comentários. Permitindo visualizar melhor quando se trata de uma réplica a um comentário.
Obrigado.