Visite também: UnderLinux ·  VivaOLinux ·  LinuxSecurity ·  Dicas-L ·  NoticiasLinux ·  SoftwareLivre.org ·  [mais] ·  Efetividade

O que é LinuxDownload LinuxApostila LinuxEnviar notícia


Em manifesto, criador do JeguePanel critica situação do software livre no Brasil

Anahuac de Paula Gil, o criador do Jegue Panel, publicou em seu site o manifesto “FOSS nacional tem jeito?”, em que expõe sua visão sobre o desenvolvimento de software livre no Brasil, comenta sobre a mudança na sua dedicação ao JeguePanel, e faz outras considerações.

Ele mandou o aviso para cá, e se você quiser entender, recomendo que leia o texto dele na íntegra, mas no interesse da divulgação, selecionei alguns trechos do texto dele, que reproduzo abaixo para que você possa ter a idéia geral antes de ler o texto inteiro.

A leitura é interessante como estudo de caso. Talvez seja bom para calibrar as expectativas (sobre o nível de demanda, ou de apoio que será recebido) para outros desenvolvedores que estejam pensando agora em fazer o que o Anahuac tentou a partir de 2006 – o índice de sucesso comercial deste tipo de iniciativa está longe de ser grande, e é bom considerar isso na hora de fazer o plano de negócio.

Mas de modo geral, embora eu reconheça – na parte objetiva da descrição – a situação de tantos outros projetos individuais por aí, o que o Anahuac expõe não corresponde à minha visão, e eu incluiria mais aspectos e variáveis se fosse analisar a trajetória comercial de uma iniciativa pessoal de software livre para configuração de e-mail e Samba.

Sobre os demais pontos abordados eu comentaria lá no artigo original, mas não achei como fazê-lo, então faço aqui mesmo. Em particular, eu gostaria de destacar 2 pontos:

1) que não são poucos os brasileiros que ganham a vida com software livre, dando sua contribuição efetiva à coletividade do software livre – muitos deles desenvolvendo código. Mas creio que poucos deles adotem o modelo de negócios que o Anahuac tentou – nisso eu concordo com ele, este modelo em particular é difícil de fazer funcionar. Em especial, não creio que faça sentido pintar com menos brilho os desenvolvedores que atuam em projetos livres de maior porte ou de cunho internacional.

2) que não compartilho da expectativa de que empresas, entidades ou o que convencionalmente se define como “o mercado” façam pelo software livre mais do que os termos de licenciamento e os contratos envolvidos exigirem. Atitudes altruístas ou guiadas por interesses convergentes existem, mas não são a regra – e quando se trata de planejar o ciclo de vida de um produto comercial, mesmo que seja baseado em software livre, é melhor se basear nesta premissa. Discordo especialmente da caracterização dada ao Google, que se em vários casos não vai além do que a sua obrigação exige, em outros (como as contribuições de código livre ao MySQL, ou os eventos de incentivo ao desenvolvimento de projetos externos, como o Summer of Code) oferece e fomenta muito mais linhas de código livre do que se imaginaria lendo o manifesto.

No mais, desejo sucesso ao Anahuac em sua busca. No interesse da transparência, informo que o JeguePanel foi anunciante do BR-Linux até 5 de janeiro, e a partir daí o banner foi mantido ativo por mim dentro da minha cota de incentivo a iniciativas nacionais ou comunitárias.

Veja abaixo o apanhado, ou leia a íntegra no site do JeguePanel. Os trechos estão na ordem em que se encontram no texto original, mas não mantive a formatação. Os subtítulos são meus.

Os trechos abaixo são do manifesto “FOSS nacional tem jeito?”, de autoria de Anahuac de Paula Gil.

Em defesa da liberdade de software:

Seja pelos seus critérios éticos e morais, seja pela sua forma pouco ortodoxa de desenvolvimento ou ainda pela primazia nos resultados, o Software Livre, a cada dia, angaria mais e mais seguidores e até mesmo fanáticos.

Sobre seu envolvimento com o software livre:

Já em 2000, entusiasmado pela filosofia iniciei meu próprio projeto Software Livre, erroneamente batizado de MyConfigurator 2000 que tinha por objetivo facilitar a configurações de serviços básicos no então cru ambiente do Gnu/Linux. Já em 2002 decidi criar algum tipo de software que me permitisse controlar servidores com total mobilidade. Assim nasceu o LESP-CEL, um programa que permite controlar computadores com Gnu/Linux conectados na Internet, através de um simples aparelho celular. Já em junho de 2004 nasceu o JeguePanel (http://www.jeguepanel.net) uma interface de administração de servidores de e-mail e Samba. Todos os projetos foram devidamente licenciados pela GPL – General Public Licence e sempre acessíveis ao mundo, visando atender aos princípios filosóficos do Software Livre, ou seja, doar à humanidade o meu pouco conhecimento e minhas poucas idéias.

Concomitantemente também me dei ao trabalho de realizar dezenas de palestras filosóficas sobre a viabilidade econômica e a necessidade moral e ética do Software Livre, culminando com uma palestra intitulada “Complexo de Formiga” onde se discutia exatamente a apatia do terceiro mundo no aceite das regras comerciais, educacionais, culturais e tecnológicas impostos pelos países do primeiro mundo.

A tentativa de profissionalização:

Tanto que em novembro de 2006 decidi tentar provar que o Software Livre poderia, além de sua filosofia, ser uma boa forma de renda. Decidi encarar o mercado e buscar formas de viabilizar o projeto de maior visibilidade – o JeguePanel – para que se torna-se sustentável. Os custos iniciais são os de sempre: servidor para hospedagem da página do projeto, conexão à internet, telefone e muitas horas de dedicação exclusiva ao seu desenvolvimento e aprimoramento.

A ausência de contribuições ao JeguePanel:

Com bastante esforço e dedicação alcançamos alguns clientes importantes, especialmente Universidades no Brasil e no exterior. Provedores de Internet, fábricas e órgãos do governo também aderiram ao uso do JeguePanel. Infelizmente a grande maioria não colabora de nenhuma forma, ou seja, não nos enviam relatórios de erros, não realizam contribuições de código, não colaboram com a documentação, não contratam nossos serviços e sequer são capazes de colaborar fazendo doações em dinheiro para o sustento do projeto. Na verdade não somos nem informados de que eles estão usando o JeguePanel.

Sabemos que a licença não obriga nenhuma das empresas que usam o JeguePanel a nos informar o que quer que seja, nem a colaborar ativamente de nenhuma forma. Entretanto entendo que sem nenhuma colaboração o princípio de funcionamento, ou seja, a força motriz do Software Livre não existe.

A comunidade brasileira de software livre

A comunidade brasileira de Software Livre é inepta quando se trata de desenvolvimento de Software Livre. Na verdade quando se trata de qualquer trabalho voluntário que esteja diretamente relacionado com o software em si. Com raríssimas exceções, a maioria esmagadora dos que realmente atuam em pró do Software Livre no Brasil estão focados na organização de eventos. (…)

Como disse antes há exceções. Estes brasileiros de destaque no cenário mundial do Software Livre e que realmente se dedicam ao desenvolvimento de software, sofrem de outro mal: “o querer aparecer no mundo”. A grande maioria deles se preocupa, e talvez com razão, em escolher projetos internacionais e/ou já solidificados no mercado. É uma excelente forma de utilizar nosso brilhantismo tupiniquim para “fazer seu nome” lá fora e ser reconhecido mundialmente. Nesse ponto está claro que projetos nacionais, mesmo que sejam muito bons não tem o mesmo atrativo. A consequência direta é que os projetos nacionais, não somente o JeguePanel, mas muitos outros, simplesmente não recebem ajuda dos poucos desenvolvedores disponível no Brasil.

Banco do Brasil e Google

Faz algumas semanas o Banco do Brasil tornou pública uma iniciativa chamada http://www.tecnologiasabertas.com.br que tem por objetivo fornecer ambientes de teste e homologação para desenvolvedores de Software Livre. São mais de 60 servidores, com alto poder computacional, que podem ser utilizados para ajudar a comunidade de Software Livre, entretanto eles pecam mais uma vez: pessoas físicas não podem participar. Contraditório, uma vez que a “comunidade” é formada, em sua imensa maioria, por pessoas físicas e não de empresas e ONG’s, ou seja, que tipo de ajuda é essa que não ajuda a quem deveria ajudar? Qualquer semelhança com a ONU não é mera coincidência.

Outro caso gritante é o da Google. Sim, a gigante dos sistema de buscas é uma das maiores utilizadoras de Software Livre do mundo. Mantém praticamente tudo sobre plataforma GPL, e não devolve nada para a humanidade. Aproveitando-se de uma brecha legal, que diz que as modificações feitas em softwares licenciados sob GPL somente tem que ser entregues se o software for distribuído, eles não mostram nenhuma das melhorias que andam fazendo. Afinal de contas eles não distribuem software, nós os usamos nos servidores deles. Legalmente impecável. Moral e eticamente reprovável.

A conclusão do Anahuac

Projetos de Software Livre, no Brasil, sem apadrinhamento financeiro estão fadados à falência. Infelizmente o JeguePanel está a ponto de não ser mais mantido por falta de ajuda comunitária, voluntária, de mercado e especialmente financeira. A partir deste momento estou procurando emprego regular para poder sustentar o JeguePanel como “hobby” até o dia em que o projeto consiga pagar as contas de casa. Afinal de contas trata-se de Software Livre e não de software+desenvolvimento+correção de bugs+personalização+documentação gratuitos.

Acredito plenamente na filosofia do Software Livre, mas depois de toda a experiência adquirida não vejo como projetos pessoais baseados nela conseguirão se manter e crescer. Especialmente com o comportamento de “Gerson” que ainda persiste em nosso país.

Apesar de ser constrangedor, este também é um pedido de emprego. Definitivamente não consigo mais sustentar a situação e o projeto nas condições atuais. Portanto se você sabe de alguma empresa precisando dos serviços de um experiente administrador de redes, por favor me avise.

• Publicado por Augusto Campos em 24/01/2008 às 12:01 am
• Link direto para este post: http://br-l.org/!81
• Siga no Twitter: @brlinuxblog e @augustocc
• Mais posts do mesmo tema: Destaque, Mercado

Comentários dos leitores para “Em manifesto, criador do JeguePanel critica situação do software livre no Brasil”

Os comentários são responsabilidade de seus autores, e não são analisados ou aprovados pelo BR-Linux. Em algumas notícias os comentários são exibidos de forma paginada, com links abaixo do formulário de inserção de novo comentário. Leia os Termos de uso do BR-Linux.

  1. Acho que a melhor chance de ganhar dinheiro como desenvolvedor (atualmente) é comercializar (serviços, contratos de desenvolvimento dedicados, etc) em cima de algum software que tenha conseguido atenção no exterior (digo, algum software que você desenvolveu mesmo e publicou em inglês para o mundo todo ver, ou em algum projeto que você contribua como desenvolvedor principal).

    O brasileiro já não paga por nada que seja software mesmo, faz parte da cultura, então não dá pra esperar que mude de posicionamento de uma hora pra outra, sendo que a muitos ainda nem entendem o que significa Software Livre.

  2. Infelizmente concordo com o Anahuac plenamente.

    Falar que ajuda todo mundo diz, mas ajudar mesmo……..

  3. Comentário moderado positivamente pelos leitores: 267

    Enquanto esse povo filosofa, eu relembro o que o Aurélio falou há um tempo atrás:

    “Muito antes da onda recente de politização do Software Livre, inclusão digital, liberdade tecnológica, ONGs digitais, certificação em Linux, representantes oficiais, porta-vozes da comunidade, paladinos, comitês, movimentos e comissões parlamentares, os desenvolvedores já estavam lá, sentados e produzindo códigos.

    Muito antes do Software Livre ser sexy e estar na moda, virar buzzword, aparecer na mídia, virar bandeira política, ganhar revistas especializadas, sites, fórums e listas de discussão, os desenvolvedores já estavam lá, sentados e produzindo códigos.

    Muito antes das intermináveis discussões de qual a melhor distro, da fragmentação de comunidades, das ofensas pessoais em canais públicos, da batalha de egos, das brigas internas de um mesmo time e da crítica gratuita, os desenvolvedores já estavam lá, sentados e produzindo códigos.

    O mundo vai continuar girando e o sol vai nascer todos os dias, assim como continuarão os ruídos, as brigas e as modas. Enquanto isso, aqueles que fazem, continuarão fazendo.”

O prazo para comentar neste post já expirou - visite a capa do site para posts mais recentes.