Nas aulas de biologia todos aprendemos sobre a importância da diversidade genética para o sucesso continuado de qualquer comunidade, e dos perigos associados à ausência dela. O professor de sociologia também recorria a este mesmo argumento para ajudar a explicar a decadência de dinastias ou grupos sociais que adotavam o costume de casar-se apenas ou principalmente entre si, eliminando assim a necessária diversidade. Nenhum geek, mesmo que tenha faltado a todas as aulas de biologia, ignora o assunto, abordado até em um episódio (o segundo da quarta temporada) da série cult Arquivo X.

Mercados equilibrados também apresentam diversidade, e tanto para o consumidor quanto para a cadeia de valor é sempre mais saudável que haja diversidade do que concentração de opções.

Mesmo assim, estamos em uma situação curiosa: se as tendências permanecerem constantes, provavelmente logo teremos uma distribuição comunitária de Linux assumindo posição de líder inconteste de popularidade, sendo vista pelo público em geral (os “não iniciados” e neófitos) até mesmo como sinônimo de Linux no desktop.

Eu vejo vários aspectos positivos nisto, e certamente é mérito dos envolvidos na distribuição por saber o que fazer para atingir a uma fatia cada vez maior dos usuários e interessados em Linux no desktop. Sob o ponto de vista de crescimento do Linux no mercado, a consolidação também é positiva, mas creio que seria mais vantajosa se houvesse a dominância de 2 ou 3 fornecedores, e não de apenas um. E note que não estou me referindo ao desktop corporativo, e sim ao meu e ao seu.


Infelizmente não dispomos de grande riqueza estatística nos dados históricos que podem ser consultados publicamente. Mas a reflexão pode partir até mesmo da pouca informação isenta que se pode obter – uma das minhas preferidas é a do Google Trends, que mostra a popularidade das buscas por determinados temas ao longo dos anos. Visite e compare o interesse despertado pelas principais distribuições em anos recentes.

Outra fonte para análise é a pesquisa dos Favoritos da Comunidade Linux Brasileira, que promovo anualmente no BR-Linux.org. Até 2005, havia alternância entre os vencedores na categoria Distribuição Desktop, que obtinham sempre menos de 25% dos votos totais. Mas no final de 2005 foi a primeira edição da pesquisa após o surgimento do Ubuntu, e a partir daí ele sempre ganhou – e em 2007 obteve a primeira maioria absoluta nesta categoria.

Tenho algo contra o Ubuntu? Não, pelo contrário. Aprecio e uso diariamente. Mas tenho visto cada vez mais reações por parte dos entusiastas das distribuições cujo percentual de participação está se reduzindo, e noto que estas reações freqüentemente apontam para o lado errado, e impedem sua efetividade.

Fica portanto a minha dica: no meu entender, para reagir a esta expansão de uma forma que todos ganhem, é necessário promover e divulgar o uso de outras distribuições – e não fazer o oposto, que é combater ou criticar o sucesso da distribuição mais popular. Diversidade é bom, mas já temos adversários suficientes, não precisamos criar disputas adicionais entre nós mesmos.

(reproduzido da minha coluna na edição 38 da Linux Magazine, leia também ” Ubuntu: Distrowatch critica o fenômeno das críticas à mais popular das distribuições Linux).