Na semana passada o criador do GNOME Miguel de Icaza fez o usual: jogou várias pás de suas opiniões no ventilador, falando sobre um declínio no número e envolvimento de desenvolvedores atentos ao desktop open source, em parte por terem tido razões para dar mais atenção aos aplicativos online, móveis ou ao Mac.

A Wired e a CNN ajudaram a dar uma dimensão muito maior à repercussão, com um título que marotamente enfatizava o potencial inflamatório da questão (“Como a Apple matou o desktop Linux”) em detrimento de vários temas interessantes que poderiam ter merecido uma abordagem que se tornou impossível devido à temperatura alcançada.

Mesmo discordando das conclusões migueladas, na minha coluna do TechTudo eu procurei extrair os argumentos interessantes levantados, incluindo as razões que tornam a ideia de Open Web atrativa para quem antes dava atenção ao nicho do desktop open source, a situação por que passa o próprio GNOME criado por quem agora vem criticar o estado do desktop aberto, e a alegação de que um dos fatores que tornou o desenvolvimento do desktop open source menos atrativo foram as repetidas novas versões que quebravam compatibilidade com o que foi construído antes.

Não mencionei no meu artigo, mas Icaza também disse que o exemplo desse comportamento de quebra de compatibilidade vinha do próprio kernel Linux.

Escrevi a minha coluna a respeito no final de semana, e depois que ela foi publicada fiquei sabendo que Linus Torvalds havia respondido às manifestações.

No primeiro momento, antes de ler, tive uma dúvida: será que Linus iria refutar que o desenvolvimento do desktop open source já não é mais o mesmo? Mas constatei que não: o ponto que ele destacou é que não é verdade que o kernel dá o mau exemplo em questão, pois a política estrita dele é limitar as mudanças aos aspectos internos do kernel, não quebrando jamais as interfaces externas (API, ABI) – ao contrário do que acontece no próprio GNOME criado por Icaza, ele enfatiza em meio a outras críticas ao projeto (e Icaza lembra, corretamente, que há muito não participa do desenvolvimento do projeto, e não gostaria que a ira torvaldiana fosse dirigida ao Gnome devido ao seu envolvimento prévio).

Outros desenvolvedores do kernel Linux, como Ingo Molnar e Ted T’so, acrescentaram comentários similares ao de Linus, rejeitando a alegação de que a culpa era do kernel, ou que o desenvolvimento do kernel adote como paradigma a quebra constante de interfaces. Alan Cox acrescentou que o próprio GNOME surgiu criando confusão de interfaces em relação ao KDE, que já existia e que ele pretendia substituir.

Seja como for e independentemente da culpa, a existência de múltiplas interfaces que evoluem quebrando compatibilidade de interfaces com aplicativos que funcionavam corretamente nas outras e em versões anteriores parece mesmo ser um fator pouco atrativo para desenvolvedores externos, que certamente preferem fazer um pacote único, adotando as melhores práticas da versão atual do ambiente e que vá ser instalável nas versões futuras por vários anos, do que as alternativas a isso.

Várias alternativas já foram tentadas e podem continuar sendo (algumas funcionam), e uma delas que tenho percebido recentemente é a presença de suporte a apenas uma distribuição popular, mas não sei avaliar se isso é bom ou ruim para o desenvolvedor.

Detalhei um pouco mais na minha coluna (incluindo aspectos como duplicações de esforços X escassez de voluntários), mas não creio que solução eficaz vá partir das próprias distribuições ou dos desenvolvedores de desktops, ao mesmo tempo em que acho natural parte dos desenvolvedores que já deram bastante atenção ao desktop open source agora preferirem ir para outros campos, inclusive o da Open Web e o do mercado móvel, onde ainda há possibilidade de continuar atendendo a boa parte do mesmo público, inclusive. (via zdnet.com – “Linus Torvalds on the Linux desktop’s popularity problems | ZDNet”)