E a razão é bem complicada para resumir em poucas palavras (veja uma descrição completa no OSNews), mas envolve cobranças do fundador do GNU (Dr. Richard M. Stallman) quanto ao que pode ou não ser postado no Planet GNOME, um agregador dos posts de blogs de várias pessoas integrantes ou associadas ao projeto. A solicitação do Dr. se baseia no fato de o GNOME ser integrante do projeto GNU.
Atualização: A notícia provocou polêmica, como tende a acontecer com as notícias do BR-Linux sobre alguns dos personagens desta novela. Para oferecer um ponto de vista diferente, aproveito que o Lucas Rocha (lucasr Θ gnome.org) avisou que publicou um “resumo objetivo (em inglês) dos temas que acabaram sendo abordados durante a discussão“, e divulgo o link para quem quiser conhecer outra narração.
Atualização 2:: Como apontou o leitor Paulo Cesar, o OSNews publicou hoje um novo artigo com esclarecimentos (“Clarifications: GNOME, GNU, Planet GNOME”) sobre o seu artigo anterior que eu menciono como sendo a “descrição completa” e na qual se baseou o artigo abaixo. Pelo que entendi, a narrativa do OSNews se baseou em uma notícia de Sam Varghese no ITWire, e esta incluía conclusões errôneas, ou ao menos não baseadas em fatos, invalidando especialmente o “Ato 1″ da novela descrita abaixo (pois o desentendimento entre comadres não estava no início do processo e nem foi tão relevante). Há vários outros pontos esclarecidos, e sugiro fortemente a leitura do novo texto do OSNews.

Apelando para uma comparação bastante imprecisa, mas bem ilustrativa, é mais ou menos como se a Coca-Cola aceitasse de bom grado contribuições de trabalho voluntário de funcionários da Pepsi, mas subitamente um diretor da matriz da Coca mandasse uma circular para uma de suas sucursais exigindo providências porque ouviu dizer que os voluntários dela, durante um happy hour realizado em local público, ao serem perguntados sobre suas atividades profissionais, conversaram em voz alta sobre um projeto público interessante que estão realizando na Pepsi.
Confesso que até hoje sou integrante de uma outra organização também presidida por Richard Stallman, mas vinha considerando deixar de integrá-la desde a sua entrevista dizendo o que pensa sobre a liberdade de escolha dos consumidores. Com este novo lance, a decisão está tomada – não que ele vá sentir falta, mas não consigo mais continuar integrando uma organização cuja liderança segue estas direções. Creio que minha contribuição direta a eles eu já pude oferecer.
Como a história é longa, vou contar na forma de resumo de novela, com personagens como o bom Doutor Richard Stallman, o VP Miguel de Icaza, a Stormy Peters e outros nomes conhecidos.

Ato 1: briga de comadres
Tudo começou a partir de um desentendimento já bem conhecido: Miguel de Icaza, fundador do GNOME, vice-presidente da Novell, pessoa que não conta com a simpatia global de comunidades em que já transitou mais de perto anteriormente, e até hoje integrante do Planeta, postou algo em seu blog sobre o Silverlight, como é até usual. Richard Stallman, que tem estado sensível quanto ao que Miguel faz e diz, logo reclamou, questionando a menção a softwares proprietários (como o .Net) no Planeta, que reproduz os posts dos blogs.
Ato 2: estaria o Doutor usando 2 pesos e 2 medidas?
Logo veio o lembrete da parte de um desenvolvedor: o Dr. Stallman nunca reclamou quando as menções de integrantes do Planeta eram a outros softwares proprietários em que estes trabalhavam, como o VmWare e alguns softwares da Nokia, por exemplo, e estas menções são bastante naturais em um agregador cujo objetivo é incluir todos os posts de seus participantes, e cuja missão oficial é “ser uma janela para o mundo, o trabalho e as vidas” de seus integrantes – e para muitos, o trabalho nem sempre é em software livre.
Ato 3: ampliando o escopo da mordaça
Mas o bom doutor raramente aceita que apontem algo que ele disse como sendo uma possível contradição, e tratou logo de ampliar seu argumento inicial, que aí deixou de ser só algo contra a manifestação do Icaza: já que é assim, argumentou ele, então não deviam postar ali sobre o VmWare, produtos da Nokia, etc. também. Simples! Porque em caso contrário, o GNOME estaria “provendo uma plataforma para a promoção de softwares não-livres”. [uma digressão: será que as agremiações RMS-compliant brasileiras vão adotar essa política em seus sites, listas públicas, agregadores, fóruns e blogs? espero que não, não sei quem sairia ganhando com informações amordaçadas, pela metade e chapa-branca...]
Ato 4: a Stormy entra em cena

Nesse ponto, a diretora executiva da GNOME Foundation, Stormy Peters, disse o que pensava sobre o posicionamento do bom doutor, e tratou de lembrar a todos da missão do Planeta GNOME (incluindo a parte que fala sobre expor o trabalho dos integrantes) e do interesse em ser inclusivo, e não em rejeitar quem não concorda em 100% com tudo durante todo o tempo.
Ato 6: você sabe com quem está falando?
Quem adivinha se o Dr. Stallman se conformou? Acertaram, ele discordou. Ele “lembrou” a Stormy que o GNOME é parte do Projeto GNU, e como tal deve suportar o software livre, e o mínimo que ele pode fazer é não ir frontalmente contra ele, ou seja, não “apresentar o software proprietário como sendo legítimo”, que aparentemente ele considera como equivalente a mencionar que um desenvolvedor de software livre também trabalha com softwares proprietários.

Ato 7: a farofa chegou ao ventilador
Tendo em vista o comportamento estrito que o fundador do GNU está exigindo dos integrantes dos projetos participantes, foi levantada a hipótese de votar sobre a permanência do GNOME no GNU.
Prós e contras para várias alternativas (tornar-se RMS-compliant, ignorar a cobrança, sair do GNU) foram apresentados, uma pesquisa preliminar foi realizada, e no momento em que fecho esta matéria, eis alguns dos resultados:
Ato 8: interlúdio musical
Não chegamos ainda ao último capítulo (será que o GNOME finalmente mudará seu nome para Gnome, como há tempos se advoga, deixando de lado a sigla original que era seu significado?), mas é interessante perceber quantas nuances possíveis de liberdade podem existir, o que pode acontecer quando se elege uma delas como sendo absoluta e permanentemente superior às demais, e como uma comunidade unida em torno de um mesmo ideal pode reagir a este tipo de interferência.
Será que farão as pazes? Alguém vai se desdizer? Ficará o dito pelo não dito? Serei eu o único a ter neste episódio a razão final para abandonar uma organização presidida pelo bom Doutor? Não percam os próximos capítulos!