Continuando a série de artigos sobre os pontos em que a evolução da configuração de suporte a hardware no desktop Linux foi bastante positiva (a ponto de hoje raramente percebermos), abro um novo capítulo tendo que fazer uma contextualização para os leitores que não passaram pela realidade da informática de meados da década de 1990: até certo momento, os PCs comuns do Brasil não tinham unidade de CD, e sua capacidade sonora se restringia ao chamado “PC Speaker” – que continua existindo, mas hoje em muitos casos serve só para fazer os beeps do BIOS antes do boot, e eventualmente os beeps do console.


Um “kit multimídia” de 1993, com placa de som, caixas de som, drive de CD, e bastante conteúdo digital em CDs para DOS

Em algum momento houve uma transição, e as pessoas que dispunham dos meios para isso compravam os chamados “kits multimídia” para equipar seus PCs 386 e 486 (e até os primeiros Pentiums) com uma placa de som, caixas de som estéreo e um drive de CD. Só depois de alguns anos estes componentes passaram a ser integrantes essenciais de qualquer PC comum para uso no desktop, e assim deixaram de ser comprados e instalados separadamente.

E o suporte a tudo isso no Linux nem sempre era fácil. Para começo de conversa, os drives de CD muitas vezes não eram conectados às portas IDE da placa-mãe, e sim a portas especiais que as placas de som possuíam, e para as quais haviam variados padrões e formas de configurar. Li muitos How-Tos sobre as variadas maneiras (uma para cada modelo e/ou fabricante) como fazer isso tudo funcionar nos sistemas já instalados.


Placa Sound Blaster ISA – note o solitário conector para o drive de CD (IDE ATAPI PnP), no lado esquerdo…

Mas era na hora de instalar o sistema operacional via CD que a porca torcia o rabo: às vezes era apenas complicado (passando parâmetros para o kernel, editando arquivos no disquete de boot, etc.), e às vezes estava completamente fora do alcance fazer o instalador acessar os arquivos do CD, e na época as próprias distribuições vinham com instruções detalhadas sobre métodos alternativos de instalação, baseados em copiar previamente os arquivos do CD para uma outra partição do computador, ou mesmo para outro computador ligado em rede local, ativando neste um servidor FTP ou mesmo um servidor web. E não foram poucas as vezes em que tive que recorrer a isso. E na época isso me divertia, ao mesmo tempo em que devia frustrar muitas pessoas que só queriam instalar o software, não queria lidar com particionamento, conexões de rede e ativação de servidores temporários…

O hardware das placas de som também dava trabalho de formas hoje esquecidas. Configurar o som exigia que o usuário fizesse pesquisa em documentação, edição de arquivos, eventuais alterações na configuração de módulos do kernel, possíveis aberturas do gabinete da CPU para olhar como estavam configurados os jumpers da placa de som que indicavam parâmetros como IRQ e DMA, e mais. O procedimento-padrão muitas vezes terminava com um teste a partir da abertura deste arquivo de áudio (em formato .AU) em que Linus Torvalds explica como se pronuncia o nome “Linux”.

E para gravar um CD? Quando os gravadores começaram a se popularizar, a operação podia exigir uma série de comandos, com infinitas variações de parâmetros para gerar uma imagem ISO contendo os dados, e depois gravá-la com programas como o cdrecord. Havia front-ends gráficos, mas de vez em quando eles se perdiam devido a alterações nas ABIs e APIs, graças inclusive à velocidade com que a tecnologia evoluía e o suporte a este hardware avançava.

Evolução do hardware e do software

O hardware foi evoluindo e se consolidando, e logo os drives de CD passaram a ser conectados como dispositivos IDE diretamente na placa-mãe, o que acabou facilitando seu reconhecimento e suporte automáticos, a ponto de hoje raramente lembrarmos que anteriormente havia dúvida sobre compatibilidade deste periférico na hora de fazer uma instalação.

As placas de som também foram se consolidando e alguns padrões prevaleceram. Ainda no tempo em que as instalações de Linux sempre ocorriam em modo texto, as distribuições começaram a incluir sistemas que reconheciam e ativavam automaticamente as placas de som mais comuns, para espanto e felicidade de muitos usuários, e para frustração de outros, seja por preferirem configurações diferentes das que eram ativadas por default, seja por perceberem que sua placa de som não estava entre as eleitas para reconhecimento automático.


Conectores de áudio de uma placa-mãe

O tempo passou, e hoje grande parte das instalações de distribuições voltadas para o desktop ocorre em micros com pequenas variações no hardware de som. Os sistemas on-board, incluídos no hardware da placa-mãe, prevalece – e tende a ser bem suportado nas distribuições. Continua a haver exceções, em especial nas placas off-board, externas e high-end. E, infelizmente, mesmo nos sistemas em que o hardware é bem suportado, a existência de múltiplos modelos de suporte (ALSA, OSS, Pulse, etc.) ainda cria alguns problemas para desenvolvedores, integradores e usuários.

Na verdade a situação chegou a tal ponto que hoje eu nem vou poder fazer uma descrição detalhada dos componentes que uso em meu desktop, ao contrário do que tenho feito nos outros artigos da série: eu não sei a marca e modelo da minha placa de som, nem do meu drive de CD. Poderia ir verificar, mas esta informação é tão indiferente para mim, que nem vou fazê-lo.

E as aplicações

A gravação de CDs e DVDs já evoluiu ao ponto de eu hoje considerar fácil. Faz tempo que não tenho um arquivo TXT com uma lista de comandos testados e aprovados para gerar e gravar os CDs ;-) E quando chega a hora de gravar, ou mesmo copiar, CDs e DVDs, programas como o HandBrake ou o que tiver sido instalado por default na distribuição sempre têm me permitido realizar a operação de forma suficientemente simples, escolhendo arquivos em uma interface gráfica e pouco me preocupando com os aspectos mais técnicos.

Ouvir música ou assistir a vídeos continua dependendo de se ter suporte aos formatos de gravação, muitos dos quais são proprietários, patenteados e não são distribuídos juntamente com as mídias de instalação, nem constam nos repositórios oficiais das distribuições. Dependendo do formato em que está o arquivo multimídia que o usuário quer acessar, ele precisa se virar – embora hoje seja comum a distribuição dar uma mãozinha, ou mesmo haver documentação que torne menos misterioso o processo.

Como não se trata de questão tecnológica, é possível que isso ainda demore bastante para mudar para alguma alternativa que seja transparente – mas vale mencionar que outros sistemas operacionais para desktop também não vêm com um pacote completo de CODECs na sua instalação, e estes vão sendo instalados pelo usuário juntamente com aplicativos. Uma diferença essencial, entretanto, é que neles muitos destes CODECs estão disponíveis, em versões de aplicativos oferecidas (ou aprovadas e licenciadas) por seus próprios autores e prontas para instalar de uma maneira que seus próprios usuários parecem considerar natural, ao contrário do que às vezes ocorre no Linux.

As novas fronteiras

Como estão profundamente ligadas ao entretenimento, as aplicações multimídia não devem parar tão cedo de evoluir na sua busca pelo suporte às mais variadas tecnologias. A chegada dos PCs com Linux à sala de TV das casas mais modernas já não é mais impedida pela ausência de suporte a HDMI, embora até pouco tempo atrás os relatos sobre o suporte a esta tecnologia indicassem que diversas configurações de hardware ainda padeciam de problemas com o áudio ou o vídeo transmitidos via HDMI, ou a necessidade de recorrer a drivers proprietários de dispositivos.

Aliás a questão das patentes e dos CODECs continua se aprofundando, na proporção em que as gravadoras e congêneres tentam impor de forma mais estrita o que elas consideram como seus direitos. O suporte direto em aplicativos de código aberto a filmes lançados comercialmente em Blu-ray, por exemplo, está longe de ser considerado uma barreira superada para os usuários – nem sempre é impossível, mas dá bastante trabalho – assim como no passado assistir DVDs comerciais já deu um trabalhão, e hoje é relativamente simples, embora geralmente ainda exija alguma configuração manual inicial.

Outros confortos modernos, como o uso de fones de ouvido Bluetooth estéreo, também ainda podem depender de boa dose de esforço do interessado, mas como neste caso não há tecnologias proprietárias inacessíveis no caminho, acredito que uma solução mais simples logo estará incluída nas distribuições mais populares!

E enquanto as soluções para estes novos problemas de hoje não chegam, vale parar para pensar no quanto já se avançou. Pessoalmente, quando lembrei de como dava trabalho instalar o Linux via CD-ROM e colocar a placa de som para funcionar, decidi que mais tarde vou abrir uma garrafa de Original em homenagem aos novos tempos em que é só plugar e usar ;-)

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