O BR-Linux raramente publica tutoriais na íntegra (para isso recomendo o Dicas-L e o VivaOLinux), mas busca fazer sua parte para divulgar a documentação produzida pelas comunidades e indivíduos com iniciativa para tanto – que infelizmente são raros.
Acompanhar os acessos ao BR-Linux me permite ter uma razoável idéia do que o público procura ao chegar aqui, pois muitos usuários (cerca de 50%) chegam pela primeira vez todos os dias, como resultado de suas buscas em sites de pesquisa como o Google. O log de acesso me permite saber o que eles estavam procurando, e em geral pode ser descrito por esta expressão: “como (instalar|configurar|usar) X no Y”. E os usuários são bem específicos: X em geral é um software ou serviço (linha discada, modem, aplicativos, etc.), e Y às vezes é Linux, mas em geral é o nome de uma distribuição ou ambiente gráfico, e às vezes a parte inicial (até o verbo) fica ausente. Alguns exemplos registrados na manhã de hoje:
É variado, mas o número de novos usuários chegando ao Linux todos os dias faz com que as mesmas perguntas que eram feitas há 5 anos continuem sendo feitas hoje, embora as respostas estejam bem mais simples – e eles não estão interessados na opinião de quem acha que para usar software livre, eles deveriam estar dispostos a entender dos seus aspectos técnicos essenciais.
Para instalar o Opera, o amule, o gwenview ou o kopete, como nos exemplos acima, provavelmente basta dar apenas um comando, ou selecionar uma opção simples no menu. E os usuários não teriam estas dúvidas se lessem o mínimo possível sobre o uso de sua distribuição, CDs de instalação e repositórios, mas muitos deles continuam não lendo isso, assim como não liam há 5 anos: eles não querem entender como funcionam os repositórios, querem apenas… saber como instalar o kopete.
Usuários com interesse de entender e contribuir com o software livre são muito bem-vindos, mas aqueles que querem só saber como rodar o Kopete também são. E é natural que após superar esta fase inicial, parte deles passe a querer contribuir como pode, e o faça na forma da escrita voluntária de tutoriais sobre as questões de baixa complexidade que resolveram, refletindo seu baixo grau de envolvimento, e de forma bem específica em relação à configuração que testaram.
Assim, proliferam os tutoriais sobre questões simples, escritos tendo em mente uma distribuição específica (seja ela o Ubuntu, Fedora, Mandriva, openSUSE ou outra qualquer, geralmente proporcional à popularidade de cada uma). Isso é ruim? Não sob o ponto de vista de quem quer – mas ainda não sabe – fazer o que está descrito no tutorial – e eles surgem todos os dias em quantidades maiores, sem ter o conhecimento que muitos consideram essencial sobre o uso de ambientes livres, mas aptos a procurar no Google suas necessidades específicas. Isso tira espaço de outros tutoriais mais avançados? Não no BR-Linux – não deixo de divulgar nenhum tutorial devido à presença de outros.

Mesmo assim, há quem reclame ruidosamente e repetidamente, no estilo das perguntas do Flame FAQ, da existência destes tutoriais que interessam a grande número de usuários, mas não a eles especificamente, expondo aos seus autores a insatisfação por eles não terem realizado um trabalho mais amplo, avaliado alternativas, verificado se o mesmo procedimento funciona com outras distribuições, etc. Há mérito neste interesse, mas questiono a forma. Os tutoriais simples atendem à demanda de grande número de usuários, e muitas vezes são o máximo que seus autores podem oferecer neste momento em termos de complexidade e amplitude. Caso sejam bem recebidos, muitas vezes estes autores se sentem estimulados a continuar escrevendo, e chegam a algum dia publicar material mais avançado. Já ocorreu várias vezes nestes quase 12 anos de BR-Linux, e para mim vale a pena continuar dando espaço para que isto tenha chance de acontecer.
Assim, defendo que não se justifica exigir destes autores fazer mais do que fizeram, ou criticá-los pela trivialidade – há muitos usuários em busca exatamente destas informações triviais, e sem interesse em buscar conhecimento mais completo e generalista. Pelo contrário: as pessoas que identificam a demanda por documentos mais completos, amplos e avançados podem fazer muito em prol da satisfação desta demanda, mas reclamar contra a existência de tutoriais que satisfazem a outras demandas não é nem de longe a forma mais efetiva de resolver a questão que eles identificam.
Portanto, fica aqui o convite alternativo para que os interessados na produção de documentação com um nível de qualidade diferenciado, outra amplitude de cobertura ou outra complexidade passem a apoiar sua produção e divulgação, seja escrevendo seu próprio material, apoiando algum grupo de trabalho já existente, ou mesmo criando um grupo de trabalho próprio.

Para facilitar a tarefa de quem desejar criar um grupo de trabalho específico para esta tarefa (o que eu não recomendo, pois há boas iniciativas existentes), preparei uma lista de discussão em que todas as pessoas que identificaram as demandas acima, bem como outros voluntários em contribuir para atendê-las, poderão solicitar inclusão para discutir entre si (independentemente, sem orientação ou coordenação por parte do BR-Linux) a melhor forma de fazê-lo.
Se este eventual grupo de pessoas desejar, posso oferecer alguns dos recursos técnicos necessários (registro de um domínio, custeio do primeiro ano de hospedagem do site, etc.) A condição é de que seja formado um grupo com pelo menos 6 pessoas, que definam entre si um método de trabalho e administração, que este método seja aberto à entrada e participação dos novos membros, e que o programa de atividades, incluindo a descrição dos produtos que serão gerados, a participação de cada membro, os prazos previstos e as origens de cada recurso necessário, seja divulgado publicamente até o dia 20 de julho de 2008, confirmado por todos os membros mencionados (por intermédio de mensagens publicadas na lista do grupo), analisado por mim, e considerado factível. Idealmente, este programa de atividades pode se basear no formato de um Termo de Abertura de Projeto + Declaração de Escopo Preliminar definidos no PMBOK, mas outros modelos podem ser adotados, a critério do grupo. Deve haver também o compromisso de que os artefatos e produtos gerados pelo grupo sejam integralmente licenciados sob uma licença de documentação livre (pode ser até mesmo a CC, desde que não seja uma de suas variantes não-livres).
Caso você prefira se filiar a um projeto já existente (recomendo) ou agir isoladamente, fique à vontade, e conte com o apoio do BR-Linux para divulgar também – basta seguir as instruções do formulário de envio.